Acesso de imigrantes venezuelanos ao Bolsa Família cresce com crise humanitária e revela papel do Estado brasileiro
O número de cidadãos venezuelanos incluídos no Bolsa Família aumentou de forma acelerada ao longo da última década, acompanhando o avanço da crise migratória iniciada em 2014. Informações do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome indicam que o Brasil ampliou de maneira significativa o acesso dessa população ao programa de transferência de renda, como parte das políticas de acolhimento e proteção social.
Em 2017, ao final daquele ano, pouco mais de mil venezuelanos estavam inscritos no Bolsa Família. Em setembro de 2025, esse contingente chegou a 205.587 beneficiários, o que representa um crescimento superior a cento e noventa vezes em menos de dez anos. O dado evidencia o impacto direto do deslocamento forçado de milhares de pessoas que deixaram a Venezuela em busca de condições mínimas de sobrevivência.
A evolução do número de beneficiários ocorreu de forma gradual nos primeiros anos e se intensificou a partir de 2021, quando mais de 54 mil venezuelanos passaram a receber o benefício. Em 2023, esse total ultrapassou 185 mil pessoas, refletindo tanto o aumento do fluxo migratório quanto a ampliação das políticas públicas de inclusão social.
Nos dois anos seguintes, os registros apontam uma leve retração. Em 2024, o número de venezuelanos atendidos chegou a 218.777 e, em 2025, caiu para 205.587. A redução pode estar relacionada a mudanças de renda, atualização cadastral, deslocamentos internos ou inserção de parte dessa população no mercado de trabalho formal.
Especialistas em políticas sociais destacam que o acesso ao Bolsa Família por imigrantes em situação de vulnerabilidade está previsto na legislação brasileira e nos compromissos internacionais assumidos pelo país em defesa dos direitos humanos. O programa não distingue nacionalidade, mas considera critérios de renda e composição familiar, o que reforça o caráter universal da proteção social.
Perfil geral dos imigrantes venezuelanos assistidos pelo Bolsa Família no Brasil
• Presença majoritária entre beneficiários estrangeiros
Os venezuelanos representam cerca de 61% dos estrangeiros que recebem o benefício Bolsa Família no Brasil, com aproximadamente 205.000 pessoas incluídas até setembro de 2025.
• Crescimento expressivo nos últimos anos
O número de venezuelanos atendidos pelo programa aumentou de apenas 1.062 em 2017 para mais de 205 mil em 2025, um crescimento articulado à intensificação da crise humanitária, econômica e política na Venezuela que impulsionou fluxos migratórios ao Brasil.
• Contexto de vulnerabilidade socioeconômica
Esses imigrantes vivem em situação de vulnerabilidade social e econômica, muitas vezes com acesso restrito ao mercado de trabalho formal, renda baixa e dependência de programas assistenciais. A elegibilidade no Bolsa Família não depende de nacionalidade, mas sim do atendimento a critérios socioeconômicos, como renda familiar per capita de até R$ 218 e cadastro no CadÚnico.
• Distribuição populacional e integração social
Estima-se que existam cerca de 582 mil venezuelanos residindo no Brasil, o que significa que aproximadamente um em cada três venezuelanos no país está incluído no Bolsa Família. Esse grupo foi muito impactado pela crise humanitária e deslocamento forçado na Venezuela, e muitos chegaram inicialmente por meio de fronteiras do Norte, especialmente via Operação Acolhida, política humanitária federal que organiza chegada, documentação, abrigo e interiorização de migrantes em municípios brasileiros.
• Composição familiar e dinâmica migratória
Dados de estudos sobre migração venezuelana na literatura e em relatórios de organismos internacionais indicam que esse fluxo é composto por famílias com jovens, crianças e adultos economicamente ativos, frequentemente com baixo nível de inserção no mercado formal de trabalho e buscando estabilidade através de ações de proteção social. A distribuição por idade tende a ser mais jovem, com grande presença de trabalhadores entre 20 e 40 anos e famílias com crianças dependentes.
• Integração no sistema de proteção social
O acesso ao Bolsa Família faz parte de uma abordagem de assistência social que inclui inclusão no Cadastro Único (CadÚnico), busca por regularização migratória e políticas de apoio à inserção socioeconômica, fortalecendo um componente multidimensional de integração social no país.
Em síntese, o perfil dos imigrantes venezuelanos beneficiados pelo Bolsa Família no Brasil reflete a intensidade da crise humanitária venezuelana, a vulnerabilidade econômica e social desse grupo e o papel do Estado brasileiro em incorporar pessoas em situação de necessidade ao sistema de proteção social, com base nos critérios legais do programa, e não simplesmente por nacionalidade.
De acordo com informações do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome , o crescimento do atendimento a venezuelanos também reacende debates sobre financiamento de políticas públicas, integração social e combate à xenofobia. Para gestores e pesquisadores, os dados mostram que o desafio não é a presença de migrantes no sistema de proteção social, mas a necessidade de políticas estruturadas que promovam autonomia, inclusão produtiva e convivência social.